A revanche de Britney Spears

Clínicas de desintoxicação, perda da guarda dos filhos, cabeça raspada em público. Sintomas de decadência? Blackout, o melhor álbum já gravado pela cantora americana, mostra que sua história não terá um fim tão previsível.

Britney Spears em nova fase. Um momento de lucidez na loucura da artista fez com que produzisse seu melhor CD.

Ser uma estrela mundial pode ser a mais estressante das ocupações. Nos últimos 12 meses, Britney Spears conseguiu se envolver em uma série de fatos que parecem inventados para uma publicação sobre celebridades em queda livre. Ela passou por três programas de desintoxicação no espaço de cinco semanas; raspou a cabeça em público; teve o sexo fotografado e visto por milhões na internet; perdeu a guarda dos filhos; foi atacada por grupos católicos após manifestar o desejo de interpretar a Virgem Maria no cinema. E, a cereja sobre o bolo, foi vista no Natal cantando para um cachorro vestido de Papai Noel pelas ruas de Los Angeles. Britney se tornou uma espécie de desastre que respira. Uma surpresa em se tratando de uma artista que quando surgiu, em 1998, aos 17 anos, era uma adolescente sempre acompanhada pela mãe, que oferecia uma música tão descartável quanto inofensiva. Britney, que vendeu 83 milhões de CDs ao longo da carreira, era o sonho da indústria de entretenimento, até ter se tornado um dos seus grandes pesadelos. A sombra de Michael Jackson sua derrocada a persegue como um vampiro? Blackout, o novo e excelente álbum de Britney Spears, mostra que sua história não terá um fim tão previsível.

Britney tem hoje 26 anos, e sua imagem (na música pop, em que imagem é tão importante quanto a voz) se distancia a cada hora da adolescente entediada dizendo que "a solidão a matava", o refrão da canção ...Baby One More Time, o cartão de visitas e primeiro grande sucesso. Naquele momento, ela era vendida para o público no papel de uma "menina levada", eroticamente provocante. Mas tudo dentro da lei, porque o universo de suas canções dançantes era o de festas com amigas, e o limite de sua perversidade estava apenas em partir o coração do astro de basquete do ginásio enquanto dançava com os cabelos louros, coreografando nos melhores dias os 47 quilos contidos em 1,63 metro de altura.

Britney foi praticamente preparada para o estrelato, porque cresceu diante das câmeras. O anseio por atenção foi um vício adquirido na infância. Aos 8 anos, tentou fazer parte do programa Clube do Mickey, mas foi considerada jovem demais. Três anos depois, ela conseguiu chegar ao programa, e entre 1993 e 1994 foi apresentadora no universo Disney. Ao lado dela estavam duas crianças que, nesta década, se tornariam dois potentes nomes da música: Justin Timberlake (com quem teve um namoro) e Christina Aguilera, uma espécie de Lex Luthor para o Super-Homem que Britney pretendia ser, porque as duas disputavam o mesmo território. Eram, ambas, cantoras loiras em busca de produtores e esquemas de marketing capazes de fazer de cada uma delas a sensação juvenil que o mercado da música precisava para continuar existindo.


Casamento na TV

Nascer nessa indústria significa ser consumido por ela, e nesse jogo estrelas brilham e se apagam com a velocidade exigida pelas TVs, rádios e revistas sobre celebridades - além da ansiedade por um novo nome, um novo rosto e um novo talento. Seus companheiros do Clube do Mickey entenderam rapidamente que a única estratégia para sobreviver nesse ambiente seria sair do reino do consumo e procurar se reinventar, exibindo a face de um autor real, e não um fantoche. Justin provou ser possível com o lançamento de FutureSex/LoveSounds em janeiro de 2007, um brilhante trabalho no qual se mostra um grande produtor na era em que os produtores reinam na música. Christina, por seu lado, se colocou no papel de uma diva da canção dos anos 30 e 40 com Back to Basics (2006). E Britney? Britney, enquanto isso, enlouquecia, e talvez esse tenha sido seu grande golpe de sorte.

Seu desejo era se tornar a próxima Madonna, mas sua persona pública estava longe disso. Ela era uma ajustada, não uma provocadora, tendo apoiado publicamente o governo Bush durante a invasão do Iraque: "Pessoalmente, acho que devemos apoiar o presidente em cada decisão tomada por ele", disse Britney. No mesmo período, decidiu fazer uma pausa na carreira para se dedicar ao então marido (o dançarino e modelo Kevin Earl Federline) e ao filho. Mas ela não poderia se ausentar da mídia, e assim foi criado um reality show para o casal: Britney & Kevin: Chaotic. No programa, vídeos pessoais e encenados sobre o encontro, o namoro e o casamento da dupla. A separação entre vida e carreira, revelação e segredo, desaparecia para Britney Spears. Depois do reality show, ela passou a fazer de sua realidade um espetáculo, e tudo - de brigas com uma tia até o divórcio foi combustível para jornais de escândalo. Público e privado se tornaram inseparáveis.

"Eu sou a miss Sonho Americano desde os meus 17 anos/ Eu sou a miss karma ruim/agora você tem certeza de que quer um pedaço de mim?/Não é por acaso que esta indústria está em pânico". Esses são os explícitos versos de Piece of Me, a segunda faixa do CD Blackout, o mais adulto, surpreendente, inteligente e poderoso trabalho musical realizado por Britney, que convocou oito produtores talentosos (entre eles, Danja e Pharrell Williams) para tentar dar um método para sua loucura. No lugar de tentar retornar à carreira que tinha antes, escolhida para ela, sua intenção é fazer de sua experiência matéria-prima para criar um sólido segundo ato em sua trajetória, um no qual ela não serve mais de ventríloqua da "indústria", podendo assim ganhar sua própria voz. Britney sobe alguns graus na escala Madonna de uso da própria imagem.

A maior ambição de Britney Spears, no cenário de tempestades sem fim que sua rotina é hoje, não é apenas sobreviver. Isso não basta. Ela deseja com seu novo álbum promover uma revanche capaz de dar uma resposta direta para aqueles que julga ser seus perseguidores. Para a mídia que a atormenta, apresenta sua versão dos fatos em canções feitas para dançar; contra a crítica, nunca muito respeitosa com seu papel na música, exibe um som em tudo contemporâneo: hedonista, elétrico e intensamente devedor dos ritmos negros, dos quais o funk e o rap são as peças fundamentais. Contra as acusações de conservadorismo, se exibe em videoclipes de maneira intensamente sexual e dominadora. No lugar do fracasso esperado pela "indústria", ela oferece sucesso.

A "indústria", claro, foi também o que possibilitou Blackout existir. E ela deve estar muito feliz, porque de outubro a dezembro foram 1,4 milhão de cópias vendidas no mundo. Mas o mais interessante no álbum é poder ouvir, em suas 12 faixas (com sugestivos títulos, Gimme More, Freakshow ou Why Should I Be Sad, entre eles), o longo discurso de Britney reivindicando o direito de ser uma cantora, uma artista, e não apenas um produto. Esta Britney parece ter poucas relações com a Britney anterior. Ela tem dado shows de diferentes tipos nos últimos meses, mas pela primeira vez rompe com o teatro da vergonha imposto por gravadoras, família e empresários para dar ao seu público duas ou três lições sobre como uma celebridade pode ser salva de si mesma.



Por: Marcelo Rezende - Jornalista da revista Bravo!
 

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